Coco Gauff está acontecendo em Wimbledon - e ninguém parece mais surpresa com isso do que ela mesma. A americana de 22 anos superou a compatriota Jessica Pegula por 4-6, 6-3 e 6-3 na Quadra Central nesta terça-feira, conquistando sua primeira vaga nas semifinais do torneio londrino e encerrando um jejum de dois anos sem vitórias na grama. O resultado coloca Gauff, bicampeã de Grand Slam, como uma das quatro candidatas mais sérias ao título mais tradicional do tênis mundial.
A vitória foi construída de forma improvável: em vez de tentar se encaixar no molde clássico do tênis sobre grama - pontos curtos, agressividade imediata, idas à rede constantes -, Gauff arrastou Pegula para um jogo mais pesado, mais profundo e mais irregular, quebrando o ritmo da adversária. Golpes de forehand altos e pesados e backhands mais planos forçavam Pegula a recuar, fazendo a bola subir fora de sua zona de batida. Foi uma estratégia que soou tão improvável quanto, por exemplo, a notícia de que Camavinga pode ir para a Inter - algo que, semanas atrás, pareceria fora do script, mas que hoje ninguém descarta. Gauff serviu bem quando precisou, chegando a 204 km/h no primeiro serviço, e foi à rede cinco vezes, conquistando três desses pontos, números incomuns para uma jogadora de fundo de quadra por natureza.
Pegula, de 32 anos, chegou à partida como favorita. Ela tem histórico sólido em superfícies rápidas na Europa e um jogo de precisão que costuma asfixiar adversárias. Mas o plano de Gauff funcionou exatamente porque desativou as armas de Pegula. "Ela saca muito bem, e às vezes comete duplas faltas", disse Pegula após a partida. "Acho que é isso que torna tão difícil jogar contra ela - você não sabe o que vem." Gauff terminou o primeiro set com 15 erros não forçados e apenas seis winners, mas se recusou a desmoronar. Salvou break points, abriu o ombro direito conforme o calor londrino aumentava e foi ganhando o controle dos pontos longos: dos 12 rallies com ao menos nove trocas de bola, ela venceu os 12.
Uma Semana de Escolhas Certas
O caminho até esta terça-feira foi construído nas semanas anteriores com decisões que, em retrospecto, provaram ser certeiras. Gauff perdeu sua partida de abertura no Berlin Open e cogitou entrar em outro torneio preparatório de última hora em busca de ritmo. Decidiu não ir. Optou pelo treino, pelo retorno aos fundamentos, pela construção interna de confiança em vez de buscá-la em resultados externos. Após cinco vitórias consecutivas na grama - superfície em que não ganhava há dois anos -, essa escolha parece ter sido das mais inteligentes da temporada.
Na entrevista após a partida, ela descreveu a sequência como "algo insano, considerando que eu não tinha vencido uma partida em dois anos antes deste torneio." Na coletiva de imprensa, riu ao falar sobre si mesma entre as quatro semifinalistas de Wimbledon como se fosse a deixa de uma piada. "Se você me dissesse que eu estaria nas semis deste torneio, eu diria: 'Você é engraçado'", afirmou, sorrindo. Ela admitiu que, se não fosse ela mesma, apostaria em Pegula para vencer a partida dado o estilo de jogo da americana mais veterana nesta superfície. Autoconhecimento e honestidade intelectual, ao mesmo tempo.
Pegula Resiste, Mas Gauff Tem a Última Palavra
A partida não foi linear. No terceiro set, com Gauff vencendo por 3-2 e sacando, Pegula reencontrou sua intensidade, perseguiu bolas nas quinas e ganhou o game com o tipo de duelo de fundo de quadra que Gauff costuma usar para quebrar o espírito das adversárias. Por um momento, o cenário voltou ao equilíbrio. Mas Gauff respondeu imediatamente, quebrando o serviço de Pegula no game seguinte à medida que a americana mais velha voltou a recuar. Quando Pegula sacava para permanecer no torneio, Gauff encostou um retorno de segundo serviço nos pés da adversária, chegou a dois pontos da vitória e não desperdiçou. Dois erros de Pegula depois, os braços de Gauff foram para o alto e ela levou as mãos à cabeça, incrédula.
Semifinal Contra Muchová e um Horizonte Que Ela Não Esperava Ver
Na quinta-feira, Gauff enfrentará a tcheca Karolína Muchová, mestra do toque e da variação - uma adversária que exigirá um ajuste diferente de repertório. Gauff, porém, já demonstrou neste torneio que sabe identificar o que cada partida demanda. "Quero jogar uma partida da qual eu possa sair orgulhosa, independentemente do resultado", disse ela. "É isso que tenho pensado durante todo o torneio." Seus objetivos originais para Wimbledon eram simples: uma vitória na grama e, quem sabe, as quartas de final. Ela está nas semifinais com quatro vitórias em três sets em cinco partidas - uma estatística que resume, melhor do que qualquer análise, a natureza resiliente e incansável do jogo de Coco Gauff.